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De dentro para fora

De dentro para fora

Rotina, trabalho, desempenho, obstáculos... pouco se reflete sobre as palavras e a força que essas possuem na vida. Apesar disso, todas as palavras que iniciaram o texto fazem parte do cotidiano da maioria das pessoas e são, ao mesmo tempo objetivos e obstáculos. Tal dicotomia é originada no interior de todo ser humano pelas exigências que o mundo moderno impõe. Como levar uma vida equilibrando o alto rendimento imposto pela sociedade e a busca pela felicidade?

O presente artigo, apesar da provocação inicial, não tem a pretensão de exaurir o tema, nem, tampouco dar uma resposta definitiva ao questionamento. Propõe, entretanto, a reflexão sobre a forma de equilibrar as exigências do dia a dia e o autoconhecimento, temas aparentemente conflitantes, mas que, na verdade, são indissociáveis.

Para compreender o mundo atual, é necessário o recurso ao passado. O estudo da história é fundamental para saber como os fenômenos que afetam a vida nos dias de hoje surgiram e como eles irão se projetar no futuro. A rotina sempre fez parte do mundo, basta observar a natureza; qualquer animal acorda em determinado momento, sai para buscar alimento, convive com seus pares de alguma maneira e, ao final, recolhe-se para dormir. O ser humano não foge dessas necessidades e também possui esse tipo de relógio biológico. Acontece que, a partir do século XVIII, com a revolução industrial e a migração em massa para as cidades; a rotina biológica, que já vinha sofrendo alterações durante os séculos anteriores, recebeu seu derradeiro golpe. Desse momento em diante, a rotina e as obrigações receberam uma nova significação e o grau de exigência de rendimento foi extrapolado de maneira nunca antes vista e os reflexos podem ser observados até os dias de hoje. Grande parte dos hábitos aprendidos nesse período foram interiorizados pelos seres humanos modernos. Se, atualmente, não se exigem rigores brutalmente impostos aos trabalhadores daquele século, novas exigências, entretanto, são impostas. A necessidade de esforço braçal foi reduzida em grande parte, mas o esforço mental e emocional são uma nova realidade exigida a todos. Assim, nota-se que, apesar de uma aparente melhora, a modernidade e o conforto também cobram seu preço, mudando apenas a forma como o homem de cada tempo pode pagá-lo.

Apesar disso, a grande diferença nessa comparação temporal está resguardada na questão da possibilidade de se atingir a felicidade. Boa parte dos homens do século XVIII não tinham o privilégio de almejar a felicidade como algo palpável devido às péssimas condições a que eram expostos naqueles tempos sombrios. Hoje, porém, a felicidade está ao alcance de grande parte da população, restando apenas ao indivíduo, trabalhar para enxergá-la dentro de si.

No tocante a esse tema, muitas ideias foram expostas ao longo do tempo, dentre elas, a nascida no ramo da filosofia do Direito, a ideia utilitária de felicidade. Resumidamente, o filósofo inglês Jeremy Bentham, fundador do utilitarismo, afirmava que o objetivo último da sociedade seria realizar ações de forma a maximizar a felicidade em detrimento da dor, seja de quais forem as consequências individuais. Apesar de bastante intuitiva e, aparentemente benéfica, essa ideia leva em consideração apenas a sociedade e relega a importância das necessidades individuais. Esse ideal gerou bastante controvérsia mas, até hoje, é aplicado de maior ou menor forma no cotidiano urbano- social. Grande parte dessa aplicação é observada na valorização, muitas vezes subconsciente, da vontade social sobre os anseios do indivíduo. A pressão para a obtenção de resultados, para o trabalho em excesso e para a manutenção de uma sociedade supressora de individualidades é o reflexo da falta de autoconhecimento e, consequentemente, da falta de humanidade.

Os obstáculos impostos pela rotina são inevitáveis e a pressão social sempre existirá, contudo, apesar de parecer um panorama desanimador, a chave para superação desses desafios e para o alcance da felicidade está presente no interior de todos os indivíduos. Para ter acesso a tal chave, técnicas a muito tempo desenvolvidas por diferentes povos podem ser utilizadas e, a contrário senso, não exigem esforços descomunais e nem muitas horas disponíveis. A prática popularmente conhecida como mindfulness, nada mais é do que a roupagem moderna da meditação e do autoconhecimento herdada do costume desses povos e que ajudará na resolução dos supracitados desafios com atividades simples e de fácil aplicação. A meditação não é algo destinado apenas à monges que se dedicam completamente a isso. Ela pode e deve ser incorporada no cotidiano de qualquer pessoa, através de pequenas doses diárias em momentos chave do dia, de forma a atingir a paz e a clareza interior necessária para superação dos desafios do cotidiano.

 Portanto, para enfrentar o árduo caminho da vida em sociedade, a plena consciência de sua individualidade é essencial. A comunidade que cerca a todos e exerce pressão pelo alto rendimento, nada é, senão, o reflexo do pensamento coletivo emanado de uma noção individual de dever e de cumprir. Ao conhecer e alterar o entendimento sobre si mesmo, através da consciência corporal plena, do esvaziamento da mente, do relaxamento corporal ou qualquer outra técnica meditativa, é possível obter o potencial necessário para gerar reflexos em toda a sociedade, mudando o mundo de dentro para fora.

 

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